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7 de agosto de 2013

Uma mulher já são tantas

Uma mulher já são tantas. Nela vive aquela que mordeu a maçã e mudou o destino do Paraíso. Aquela que se eternizou na fogueira em nome de um país. Aquela que colocou a primeira saia acima da altura do joelho e flexibilizou uma revolução moral. Aquela que fumou pela primeira vez um cigarro em público sem precisar se esconder nas grades invisíveis da hipocrisia. Aquela que rasgou o sutiã, colocou biquíni e, não satisfeita, fez biquinho para os moralistas de plantão.

Mas há também aquela que está do seu lado, aquela que não está nos livros de história, mas muda o rumo da sua história. Aquela que você chama de mãe, irmã, esposa, filha, vó, tia, prima… Aquela que desperta bem cedo, antes do sol, e, mesmo morrendo de sono, dá vida ao seu dia. E acorda descabelada, sim!; sem maquiagem, sim!; rouca, sim!; com a blusa furada, sim!; mas continua sendo a pessoa mais linda que você vai encontrar durante todo o seu dia. (Afirmo isso sabendo que você ainda nem saiu de casa!)

Arte de Lena Sotskova
Uma mulher já são tantas. Nela mora aquela que se desespera quando vê uma barata e voa diretamente para os seus braços: e te assusta! Homem não tem medo de barata: homem tem medo do medo da mulher que se assusta quando encontra uma barata perdida, caminhando pelo chão da sala, se arrastando entre uma faca e um garfo no fundo da gaveta do armário da cozinha. Ah, não pense que é privilégio unicamente das baratas! Isso também vale para o maribondo, o pernilongo, a libélula, as aranhas e as borboletas. Pasmem: algumas mulheres se assustam com borboletas!

Uma mulher já são tantas. Nela convive aquela que sempre quer perder dois quilinhos, mas nunca pensa em abandonar o brigadeiro depois do almoço, antes do cigarro ou durante toda a TPM. Existe aquela que quer passar o domingo inteiro deitada de pijama, comendo pipoca, sem se preocupar com nada. E mesmo quando ela pedir para você escolher o filme, ela vai arrumar um jeitinho doce de você escolher o filme que ela já queria que você escolhesse antes mesmo de sair de casa e caminhar até a locadora. E o melhor: você nem vai se sentir pressionado e vai até ficar orgulhoso por ter escolhido O filme que ela queria! Ela vai sorrir. Você também

Nela você encontra aquela que cortou incríveis 3 milímetros de cabelo e fica sem falar com você por 3 semanas ou mais porque você não reparou. Há aquela que te faz esperar 15 minutos a mais além do atraso já esperado e te pede desculpas, ajeitando o brinco do lado esquerdo. Tudo bem! O sorriso da mulher já vem com um silencioso pedido de perdão. Todo atraso feminino deve ser perdoado: está escrito na bíblia do bom-senso! Mas não se engane: há também aquelas que chegam na hora e se irritam um tiquinho se você for o protagonista do atraso.

Uma mulher já são tantas. Aquelas que sonham em ser bailarinas, pilotar aviões, pousar na lua. Sim, rapaz, mulheres sonham alto, muito alto. E, não, nem toda mulher assiste à novela. Não, nem toda mulher chora na TPM (ok, isso talvez seja mentira!). Não, nem toda mulher gosta de rosa. Elas gostam dos gestos, da lembrança. A flor não precisa ser uma flor, pode ser um chocolate comprado em uma banca de jornal, um coração todo torto rabiscado no verso de um recibo de um supermercado barato… Pode ter certeza, rapaz, a maior riqueza que uma mulher pode receber é saber que você pensou nela em algum momento do seu dia!

Sim, rapaz, ela é única justamente por ser tantas.

Antonio - Eu me chamo Antonio

6 de março de 2013

Fernanda Mello

Gosto de pensar assim: se a gente faz o que manda o coração, lá na frente, tudo se explica. Por isso, faço a minha sorte. 
Sou fiel ao que sinto. 
Aceito feliz quem eu sou.
Não acho graça em quem não acha graça. 
Acho chato quem não se contradiz. 
Às vezes desejo mal. 
Sou humana. Sou quase normal. 
Não ligo se gostarem de mim em partes. Mas desejo que eu me aceite por inteiro. 
Não sou perfeita, não sou previsível. Sou uma louca. 
Admiro grandes qualidades. Mas gosto mesmo dos pequenos defeitos. São eles que nos fazem grande. Que nos fazem fortes. Que nos fazem acordar. 
Acho bonito quem tem orgulho de ser gente. Porque não é nada fácil, eu sei. 
Por isso continuo princesa. Continuo guerreira. Continuo na lua. Continuo na luta. 
No meio do caos que anda o mundo,
Aceitar é ser feliz.


28 de fevereiro de 2013

Álvaro de Campos



Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir. 
Sentir tudo de todas as maneiras. 
Sentir tudo excessivamente
Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas 
E toda a realidade é um excesso, uma violência, 
Uma alucinação extraordinariamente nítida 
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas


Álvaro de Campos, in "Poemas" 
Heterónimo de Fernando Pessoa

12 de novembro de 2012

William Blake


Veja o mundo num grão de areia, 
veja o céu em um campo florido, 
guarde o infinito na palma da mão,
e a eternidade em uma hora de vida!

25 de outubro de 2012

Família


Que a família comece e termine sabendo onde vai.
E que o homem carregue nos ombros a graça de um pai.
Que a mulher seja um céu de ternura, aconchego e calor.
E que os filhos conheçam a força de onde brota o amor.

Que marido e mulher tenham força de amar sem medida.
Que ninguém vá dormir sem pedir ou dar seu perdão.
Que as crianças aprendam no colo o sentido da vida.
Que a família celebre a partilha do abraço e do pão.

Pe. Zezinho SCJ

1 de fevereiro de 2009

" As pessoas têm estrelas que não são as mesmas. Para uns, que viajam, as estrelas são guias. Para outros, elas não passam de pequenas luzes. Para outros, os sábios, são problemas. Para o meu negociante, eram ouro. Mas todas essas estrelas se calam. Tu porém, terás estrelas como ninguém... Quero dizer: quando olhares o céu de noite, (porque habitarei uma delas e estarei rindo), então será como se todas as estrelas te rissem! E tu terás estrelas que sabem sorrir! Assim, tu te sentirás contente por me teres conhecido. Tu serás sempre meu amigo (basta olhar para o céu e estarei lá). Terás vontade de rir comigo. E abrirá, às vezes, a janela à toa, por gosto... e teus amigos ficarão espantados de ouvir-te rir olhando o céu. Sim, as estrelas, elas sempre me fazem rir!"
Antoine de Saint-Exupéry

26 de dezembro de 2008

Ter Asas

Ter asas é Dançar na chuva...
É plantar uma arvore...
Ver a inocência nos olhos de uma criança...

É ficar bem quietinho ao lado da pessoa amada...
É subir uma montanha...
É encontrar os amigos e não falar nada importante, Mas falar, falar muito...
É cantarolar uma música antiga ...
É arrumar as gavetas, e dar um monte de roupa para quem precisa...
É andar sem rumo, só por andar...
É falar sozinho...
É sorrir para aquele velhinho lá da praça...
É ficar sentado na cozinha, assistindo a mãe fazer bolo...

Ah ! Ter asas é raspar a panela de brigadeiro com os dedos
É brincar
É rir de si mesmo
É ter um lugar secreto bem lindo e fugir para lá de vez em quando
E ficar de bobeira...
É tomar um banho de cachoeira, nadar em um rio
Ir para a praia, se cobrir de areia e pegar jacaré
Ter asas é viver intensamente as coisas simples e belas
Do dia a dia
Ter asas é ficar em silêncio e ouvir dentro da gente Deus
É isso que desejo para o Ano Novo que está chegando...
Que você tenha asas como das águias!!!!

Que a lua e as estrelas emprestem um pouco do seu brilho para iluminar o novo ano, e que Deus nos dê "asas de águia" para voarmos bem alto na construção de um mundo melhor.
(Autor Desconhecido)


Feliz Ano Novo meus amigos!

8 de novembro de 2008

Blogagem coletiva - Hoje é dia de Cecília 07/11

A arte de ser feliz
Houve um tempo em que minha janela se abria
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Ás vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

Cecília Meireles



Photobucket


Ops, olha eu atrasada, blogagem dia 07/11 e eu postando dia 08/11, desculpa Leonor, ando com problemas em relação a minha conexão de banda larga, não consegui acessar ontem... mas enfim, todo dia é dia de Cecília, uma das minhas autoras favoritas.

11 de outubro de 2008

Peter Pan

Mas se você quiser voar,
Venha eu vou te mostrar.
Mas se você quiser saber,
Talvez eu possa dizer.

Se o seu mundo não é normal,
O que importa se a vida real
Ou fantasia pode ser,
Se quem faz sua vida crescer,
Simplesmente é você,
Fatalmente é você.

Momentos de alegria,
Coisas que ainda não via.
Seres talvez alados,
Talvez bizarros,
Mas tudo depende de você,
Apenas você.

Então feche os olhos,
Pense em todas as maravilhas do mundo,
Multiplique e vá ao fundo,
Você vai ver muita coisa acontecer,
Mas simplesmente é você,
Fatalmente é você.

Eu ainda posso falar de todas as coisas que vi
E vivi Mas que tal você ver Só assim possa crer.
Feche os olhos
Agora veja suas maravilhas
Suas alegrias
Multiplique por três
E simplesmente é você
Fatalmente é você.
Autoria: MarinaGRC

Dedico este poema ao meu amigo Peter Pan que tanto adoro, desculpe amigo por não estar mais tão presente, vou confessar que ando com um desânimo imenso, mas isso tudo passa.
Abraços e Beijos a todos visitantes e amigos.

30 de junho de 2008

Quem sou eu além daquele que fui?
Perdido entre florestas e sombras de ilusão
Guiado por pequenos passos invisíveis de amor
Jogado aos chutes pelo ódio do opressor
Salvo pelas mãos delicadas de anjos
Reerguido, mais forte, redimido,
Anjos salvei
Por justiça lutei
E o amor novamente busquei

Quem sou além daquele que quero ser?
Puro, sábio e de espírito em paz
Justo, mesmo que por um instante,
Forte, mesmo sem músculos,
E corajoso o suficiente para dizer “tenho medo”

Mas quem sou eu além daquele que aqui está?
Sou vários, menos este.
O que aqui estava, jamais está
E jamais estará
Sou eu o que fui e cada vez mais o que quero ser
Mudo, caio, ergo, sumo, apareço, bato, apanho, odeio, amo…
Mas no momento seguinte será diferente
Posso estar no caminho da perfeição
Cheio de imperfeições
Sou o que você vê…
Ou o que quero mostrar.
Mas se olhar por mais de um segundo,
Verá vários “eus”,
Eu o que fui, eu o que sou e eu o que serei.

Christian Gurtner

15 de maio de 2008

As coisas essenciais

"Leia este poema bem devagar, pois cada imagem merece a preguiça do olhar:

No mistério do Sem-Fim,
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro:
no canteiro, uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o Sem-Fim,
a asa de uma borboleta.

É pequeno, mas diz tudo. Nada lhe falta. Uni-verso. Nenhuma palavra lhe poderia ser acrescentada. Nenhuma palavra lhe poderia ser tirada. Assim se faz um poema, com palavras essenciais. O poema diz o essencial.

O essencial é aquilo que, se nos fosse roubado, morreríamos. O que não pode ser esquecido. Substância do nosso corpo e da nossa alma...
Os poetas são aqueles que, em meio a dez mil coisas que nos distraem, são capazes de ver o essencial e chamá-lo pelo nome. Quando isto acontece, o coração sorri e se sente em paz..."

(Da crônica intitulada: As Coisas Essenciais - de Rubem Alves, do livro: O Retorno e Terno)

10 de dezembro de 2007

Uma Oração

Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.

Faça com que minha solidão me sirva de companhia.

Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.

Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços
o meu pecado de pensar.
(Clarice Lispector)

8 de dezembro de 2007

Resoluções de Fim de ano

"Chega de ficar quebrando a cara
com os velhos erros de sempre.
Quero cometer erros novos,
passar por apertos diferentes,
experimentar situações desconhecidas,
sair da rotina e do lugar comum.

Esse ano eu preciso crescer.
Chega de saber a saída
e ficar parado na porta,
ensaiando os passos
sem nunca entrar na estrada,
esperando que me venha
o que eu mais preciso encontrar.

Esse ano, se eu tiver que sofrer,
será por sofrimentos reais
- nunca mais por males imaginários,
preocupado com coisas
que jamais acontecerão.

Chega de planejar o futuro e tropeçar no presente.
Chega de pensar demais e fazer de menos.
Chega de pensar de um jeito e fazer de outro.
Chega do corpo dizer sim e a cabeça não.
Chega desses intermináveis conflitos que
me fazem adiar para nunca a minha decisão.
Este ano eu vou viver."

Vinícius de Moraes

5 de dezembro de 2007

A CANÇÃO

Enquanto os teus olhos ainda estão cerrados sobre os
mistérios noturnos da alma
E o dia ainda não abriu as suas pálpebras,
Nasce a canção dentro de ti como um rumor de águas,
Nasce a canção como um vento despertando as folhagens...
Não vem de súbito, vem de longe e de muito tempo.
Mas - agora - estás desperto na cidade e não sabes,
Entre tantos rumores e motores,
Como é que tens de súbito esta serenidade
De quem recebesse uma hóstia em pleno inferno.
Deve ser de versos que leste e nem te lembras,
De telas, de estátuas que viste,
De um sorriso esquecido...
E destas sementes de beleza
E que
- às vezes -
No chão do rumoroso deserto em que pisas,
Brota o milagre da canção!

(Mário Quintana)

27 de novembro de 2007

Meme do Dicionário

Batelão: Embarcação robusta, de fundo chato para desenbarque ou transporte de carga. (Verificado no Aurélio)
Recebi esse curioso meme da Beth Santana e da Áurea
As regras são:
1 - Pegue o dicionário, de preferência de língua portuguesa, mais próximo que você encontrar;
2 - Abra esse dicionário em qualquer página;
3 - A primeira palavra que você ver, pegue para si, e a digite no “Google Imagens“;
4 -Faça uma postagem dizendo que palavra foi essa e mostre o primeiro resultado de imagem conseguido digitando essa palavra;

Passo para o Oscar, Para a Juli Ribeiro, Para a Renatinha e para o Pena e para a Jana de Porque Cargas D'agua.

Eu hein, que barco mais estranho, dá impressão que vai afundar a qualquer momento ... O poema que achei é mais bonitinho que a foto.

CEMITÉRIO DE NAVIOS?

De tudo que se avista daqui é o que se lê.
Quase como descrição, de título e de intenção.
Mas não se enganem, não é isso.
Se é cemitério, onde estão os sinos?
Os Alvarengas destroçados?
Não se avista Batelão desmantelado,
Barca, Barcaça ou Bergantim.
Prestes a afundar.
Improviso, sim,
"De asas abertas, como se fosse decolar".

De onde se observa, não se vê quilhas enferrujadas,
Âncoras desancoradas, timões desajeitados,
Correntes sem elos. Só elas.
As poesias.
Essas sim, têm de sobra. Luxuosas,
Como Transatlânticos,
Até no subsolo, como se no cemitério
“Estivéssemos acolhidos entre dois infinitos”.
Não há briga, nem Brigue, mas Fruto
E suave brisa que impulsiona Caravelas,
Naus e Patachos, ainda que não tenham velas.

Se há Cargueiros ancorados
Esperam, harmônicos, os sonhos de partirem
Para mares tantas vezes navegados.
Aí se pensa em como se cruzam Chatas com Clíper
Corveta com Cúter, e Draga com Iate.
Mas não se esbarram, não afundam.

Talvez se encontre Sagrado, mas Encouraçado?
Reluz de proa e popa próximo da Escuna,
E da Fragata, Simples e Confortável Mente.
Quem viu o Galeão a Galera, a Lancha, o Lúgar?
Nenhuma Nau a vista e não tem Navio de Desembarque.
Encalhado, virado, abalroado.

Bote, Palhabote, paquete, patacho,
Pesqueiro, Saveiro, Sumaca ou Pontão
Rebocador, Submarino, Vapor,
Vapor de Rodas, e Veleiro, nada disso.
Mas existe Trama, Renovação,
E muita Construção
Parece fábrica de emoção.

Vicente Siqueira

30 de outubro de 2007

Concreta

Já bati contra o muro
Já me vi em ruas sem saídas

Já chorei muito, mas já ri muito mais.

Porque não há parede que me bloqueie
Escuro que me afugente
Eu vivo a vida urgente!
Eu posso voar se chegar no fim...

Porque não há fim para uma alma eterna.
Não há breu onde há brilho

E eu brilho sim meu bem!

Eu deixo minha marca

Te dou o meu sorriso
Minhas palavras...
Meus olhos falam por mim

Não preciso de definições.

Minha face me define

O clima me destingue.

Não sou musa, bem que queria

Ser arte, mas não ser julgada pelo olhar comum.
Quero um olhar detalhado, estudado

Não palavras ditas só por dizer

Ser admirada, ponto a ponto de uma arte
Nem um pouco abstrata.

Autoria: Carolina Salcides

26 de outubro de 2007

Reverência ao destino

Falar é completamente fácil, quando se tem palavras em mente que expressem sua opinião.
Difícil é expressar por gestos e atitudes o que realmente queremos dizer, o quanto queremos dizer, antes que a pessoa se vá.
Fácil é julgar pessoas que estão sendo expostas pelas circunstâncias.
Difícil é encontrar e refletir sobre os seus erros, ou tentar fazer diferente algo que já fez muito errado.

Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém, dizer o que ele deseja ouvir.
Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer sempre a verdade quando for preciso.
E com confiança no que diz.

Fácil é analisar a situação alheia e poder aconselhar sobre esta situação.
Difícil é vivenciar esta situação e saber o que fazer ou ter coragem pra fazer.

Fácil é demonstrar raiva e impaciência quando algo o deixa irritado.
Difícil é expressar o seu amor a alguém que realmente te conhece, te respeita e te entende.
E é assim que perdemos pessoas especiais.

Fácil é mentir aos quatro ventos o que tentamos camuflar.
Difícil é mentir para o nosso coração.

Fácil é ver o que queremos enxergar.
Difícil é saber que nos iludimos com o que achávamos ter visto.
Admitir que nos deixamos levar, mais uma vez, isso é difícil.

Fácil é dizer "oi" ou "como vai?"
Difícil é dizer "adeus", principalmente quando somos culpados pela partida de alguém de nossas vidas...

Fácil é abraçar, apertar as mãos, beijar de olhos fechados.
Difícil é sentir a energia que é transmitida.
Aquela que toma conta do corpo como uma corrente elétrica quando tocamos a pessoa certa.
Fácil é querer ser amado.
Difícil é amar completamente só.
Amar de verdade, sem ter medo de viver, sem ter medo do depois. Amar e se entregar, e aprender a dar valor somente a quem te ama.

Fácil é ouvir a música que toca.
Difícil é ouvir a sua consciência, acenando o tempo todo, mostrando nossas escolhas erradas.

Fácil é ditar regras.
Difícil é seguí-las.
Ter a noção exata de nossas próprias vidas, ao invés de ter noção das vidas dos outros.

Fácil é perguntar o que deseja saber.
Difícil é estar preparado para escutar esta resposta ou querer entender a resposta.Fácil é chorar ou sorrir quando der vontade.
Difícil é sorrir com vontade de chorar ou chorar de rir, de alegria.

Fácil é dar um beijo.
Difícil é entregar a alma, sinceramente, por inteiro.

Fácil é sair com várias pessoas ao longo da vida.
Difícil é entender que pouquíssimas delas vão te aceitar como você é e te fazer feliz por inteiro.

Fácil é ocupar um lugar na caderneta telefônica.
Difícil é ocupar o coração de alguém, saber que se é realmente amado.

Fácil é sonhar todas as noites.
Difícil é lutar por um sonho.

Eterno, é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade, que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata.
Carlos Drummond de Andrade

11 de outubro de 2007

DESEJOS

Desejo a você...
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho.
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu.

Carlos Drummond de Andrade

2 de outubro de 2007

São os teus olhos...

Encantas-me com esse olhar noturno,
silencioso, mas revelador de tudo...
um mundo de coisas belas e sutis.

Encantas-me com esse teu jeito sedutor,
transformando a vida em sonho e amor...
E que tudo é mar, é azul, é infinito.

Pobre de mim, por que não escutas o meu grito!...
E o meu poema é simplesmente uma flor,
que dos teus olhos um dia desabrochou.

(Antonio Carlos Menezes)

21 de setembro de 2007

O Haver - Vinicius de Moraes




Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
essa intimidade perfeita com o silêncio.
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo.
Perdoai: eles não têm culpa de ter nascido.
Resta esse antigo respeito pela noite
esse falar baixo essa mão que tateia antes de ter esse medo de ferir tocando essa forte mão de homem cheia de mansidão para com tudo que existe.
Resta essa imobilidade essa economia de gestos essa inércia cada vez maior diante do infinito essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível essa irredutível recusa à poesia não vivida.
Resta essa comunhão com os sons esse sentimento da matéria em repouso essa angústia da simultaneidade do tempo essa lenta decomposição poética em busca de uma só vida de uma só morte um só Vinícius.
Resta esse coração queimando como um círio numa catedral em ruínas essa tristeza diante do cotidiano ou essa súbita alegria ao ouvir na madrugada passos que se perdem sem memória.
Resta essa vontade de chorar diante da beleza essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido essa imensa piedade de si mesmo essa imensa piedade de sua inútil poesia de sua força inútil.
Resta esse sentimento da infância subitamente desentranhado de pequenos absurdos essa tola capacidade de rir à toa esse ridículo desejo de ser útil e essa coragem de comprometer-se sem necessidade.
Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza de quem sabe que tudo já foi, como será e virá a ser.
E ao mesmo tempo esse desejo de servir essa contemporaneidade com o amanhã dos que não tem ontem nem hoje.
Resta essa faculdade incoercível de sonhar, de transfigurar a realidade dentro dessa incapacidade de aceitá-la tal como é e essa visão ampla dos acontecimentos e essa impressionante e desnecessária presciência e essa memória anterior de mundos inexistentes e esse heroísmo estático e essa pequenina luz indecifrável a que às vezes os poetas tomam por esperança.
Resta essa obstinação em não fugir do labirinto
na busca desesperada de alguma porta quem sabe inexistente e essa coragem indizível diante do grande medo e ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer dentro da treva. Resta esse desejo de sentir-se igual a todos de refletir-se em olhares sem curiosidade, sem história.
Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho,
essa vaidade de não querer ser príncipe senão do seu reino.
Resta essa fidelidade à mulher e ao seu tormento esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável.
Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços
e esse eterno ressuscitar para ser recrucificado.
Resta esse diálogo cotidiano com a morte esse fascínio pelo momento a vir, quando, emocionada, ela virá me abrir a porta como uma velha amante sem saber que é a minha mais nova namorada.

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